20140917

Você é como um sonho

Numa dessas tardes que já dão sinal da noite, ternas como o cerrar dos olhos feridos de choro, sonhei com você mais uma vez em uma festa. Com os sentidos entregues ao delírio, você veio a mim como antes já veio: balbuciando frases sem sentido e desconexas, eu era a única. “Única o que?”, eu pensei. Diante da sua inconsequente  ebriedade de se dirigir a mim, de repente o som se emudeceu e só restamos eu e você num espaço escuro. Decidi lhe trazer para minha casa, que já fora nossa. Sentei-lhe em uma cadeira abaixo do chuveiro e vi a água fria da madrugada correr no teu corpo despido. Meu coração apertava junto com os meus olhos, incrédulos de tal situação. Te banhei, te cuidei, te alimentei, te vesti, te mimei. Quando te deitei, longe de mim, pude te amar, já desacordado: beijei teus lábios semi-cerrados, frios como nossos últimos beijos. Me mediquei além da posologia prescrita, porque não queria conceber aquela situação inesperada. No outro dia, você já tinha ido e me deixado um bilhete: “Desculpa o incômodo e obrigado por tudo.” Me perguntei se você leria o que te deixei, dobrado e dentro do bolso da calça: “Te amar é como ser um monte de areia de frente para o mar; tu vens, me levas, me traz de volta, vais embora, me levas e me traz... E a ressaca é toda minha. Te recolhes e vê se não me leva mais. Te amo e não quero mais te amar.” Finalmente acordei desse devaneio vespertino, com o sol já anunciando sua partida. E percebi que você na minha vida é como um sonho, como esse que tive; Longe da aridez desperta da realidade, é lindo estar contigo. Mas no saltar dos olhos, você vai embora. Como se nunca tivesse estado ao meu lado.

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