20140522

Sobre a saudade

saudade é acordar sorrindo
inda de olhos cerrados
percebendo a vida ao redor
sem querer prestar contas
ao mundo e à cama vazia
de tão vãs as queixas vãs
das pessoas e das ruas.
saudade é amar o travesseiro
no instante do sonho febril
é o palpar do distante
é não querer acordar jamais.
a saudade do amor que late
é viver em amargo pranto.
saudade é acordar chorando.

20140513

Escrava

estou morta. cometo suicídio diário
grades de ferro imaginárias bloqueiam
inibem minha conexão com a vida
sem teto sem chão sem mãos, sem
sem nada onde eu possa aterrizar
presa no ar, no terror, no conflito
me aprisiono, me marco a ferro
brasa invisível tangível me abre
me deixa escaras que não fecham
trabalho em função da solidão
porque as ruas só têm ratos
bichos peçonhentos magoados
revoltosos por mesquinharias
sempre querendo o maior pedaço
quando a vida deveria dispor tudo
a todos, mas só regala a porcos
a morte me surge como alento
com a vida só aprendi desprezo
cometo suicídio diário. estou morta

20140506

As roupas ainda estão no varal

nothing has changed at all
meus cabelos vêm crescendo
envelheci mas não amadureci
ainda sonho as velhas baladas
músicas do começo são as do fim
i'd still have you anytime, believe me,
believe me when i tell you
as roupas ainda estão no varal
me vêm ódios, me vêm paixões
amores do começo são os do fim
ainda sonho as velhas tentativas
frustrações de um passado extenuante
presentes em um presente que estagna
hoje sonhei que te encontrei
num esgoto, ou coisa parecida
eu dizia, "quero falar com você"
era uma festa de ano novo no esgoto
gente imunda, fedendo a fezes
narinas brancas, olhos frenéticos
bocas exalando hollywood e vinho
só que você não estava nessa festa
estava distante, sempre distante e frio
se é que se pode chamar de festa
algo que reside no submundo da ideia
você dizia, "não vai dar, não quero
não tenho mais nada a falar"
eu dizia, "as roupas ainda estão no varal,
esperando que você volte pra tirar
com a mesma alegria e paixão
que foi feita aquela erva com passiflora
que foi feita aquela transa de cinco horas
que foi dado aquele olhar de pai
quando me feria e derrubava lágrimas
let me disarm you with a smile
and cut you like you want me to,
don't ever leave me alone"
por cima do esgoto passavam carros
que extasiados motoristas passavam
dando tchau e gritando contentes
"feliz ano novo, feliz 2014!"
enquanto você me respondia
ao lado de uma moça sem rosto
"não vai dar, não quero
não tenho mais nada a falar
meus cabelos vêm crescendo
envelheci e amadureci
sonho com novos repentes
músicas do começo não toco
nem no meu violão nem no pandeiro
i don't wanna leave her now
you know i believe and how"
acordei de sobressalto, com violência
com o pânico diário de perceber que
as roupas ainda estão no varal.


20140502

Confissão

aqueles rompantes de raiva
de amor, de qualquer coisa,
sentimentos limítrofes, abusivos
ligações no meio da noite,
escritos repetitivos, enjoativos
decisões sem duas vezes pensar
guiadas pelo desejo pulsante,
latente dos nossos sexos
aquela necessidade explosiva,
corrosiva, incoerente, pungente
dores intermináveis, suor febril
incontrolável, indomável
o falso cheiro nos cômodos,
incômodo, o gosto do cigarro,
intragável, a mentira da saudade,
é mentira! minha confissão,
é tudo mentira minha. 

eu amo conceitos, quero doçuras
quero amor, quero ternuras,
quero forças, quero tudo de bom.
e a verdade é que o meu amor,
minha entrega a você é uma pilhéria,
um escarro demente do diabo,
uma praga vil que me jogaram,
porque você, meu caro, é um merda.