20130914

Incêndio

Chamas-me de poesia, mas as chamas
da nossa poesia, amor, são maiores
que qualquer coisa ou qualquer um
que se queira poesia! Sonho
com nossos corpos submersos
numa banheira de sonhos, daqueles
bem pagãos! Daqueles cheios de êxtase,
daqueles que os moralistas têm medo
de sonhar. Nós, os tolos, os poetas
não temos medo de mergulhar. Tolos,
mergulhamos, nos inundamos, 
nos incendiamos da mais transcendente poesia. 
Nossos corpos juntos, amor, são maiores 
que qualquer poesia já pensada, 
já pretendida nos lábios de qualquer
pagão. Nós somos poesia viva!

20130904

Toque

Tua pele é um manto de feitiços
Me dispo de pudores e viro
uma louca, compulsiva com o 
teu toque, que logo vira meu;
Meu toque é ser obsessivamente
tua; luto contra mim, mas a fera
que em mim reside está dopada
domada pelo feitiço do teu toque,
que é meu.

Palmada

Me sinto tão amada, amor, cada vez que levo pal
mada! As marcas da tua mão quase se tornam parte
da minha pele, passando pelo meus quadris,
garganta e rosto. Dói, mas dói gostoso, dói
na delícia da palma da tua mão, rija e dura
que se estende na delícia dos teus dedos
que desenham o incêndio que se espalha entre
minhas pernas, que também amam as palmadas
da palma da tua mão. Ai, como é bom levar pal
mada do meu amor!

Falo

Falo porque minha boca pede
Saliva de desejo de falar
O quanto ela precisa do teu falo.
Minha boca fala e lateja
Anseando o falo que entra e sai
Que sai e entra pedindo mais.
Falo porque meu corpo chama
Arde na loucura de se abrir
No instante em que penso no teu falo.
Me abro e falo ao teu falo
- Vem, me adentra, me queira
Enquanto não te tenho, apenas falo.

20130829

Saudade

Saudade, terra onde o passado
se faz presente. Saudade, onde
habita você nos meus olhos.
Onde o temor se revela na ausência
dos teus beijos, presente em qualquer
cidade, em qualquer idade, até
na maldade de te querer só pra mim.

Saudade, terra onde lateja você
em qualquer boca, em toda risada.
Saudade, onde o vento vira carícia,
onde o chão me abrasa, onde o chão
arde doce na lembrança de ontem.
Terra onde o tempo não passa
a água não corre e você existe em mim.

20130729

Algema

Pela última vez você me deixou
Depois de uma incessante vibração
Uma incessante brasa, que ardia
Arde no meu peito, no meio das pernas
Minhas e tuas. Mas não no teu peito
Só em mim arde, dói e chora
Late, sangra e ilumina meu sono
Não adiantam todas as inas de farmácia
Inas de vibradores, inas de bocadas
Eu só queria a ina do teu beijo.

Pela última vez você me deixou
E eu ainda te quero mais que tudo.

20130711

São Paulo, 5 de julho de 2013

Meu coração não sei porque bate feliz quando te vê... E os meus olhos ficam sorrindo e pelas ruas vão te seguindo...  Mas mesmo assim, foges de mim... Ai se tu soubesses  o quanto sou tão carinhosa e o tanto que te quero; e como é sincero o meu amor, eu sei que tu não fugirias mais de  mim; Vem, vem, vem, vem!... [Pixinguinha]
Amor,
Os meus escritos pra você, ou pra quem quer que seja, têm o simples objetivo de fortalecer algo que não é bem expresso pessoalmente. Quando este algo é lido, acho que a compreensão se faz maior. E é por isso que te escrevo, talvez pela última vez, senão a última com o peso dessas palavras.
Vim atrás de últimos contatos com você, pessoa que se fez tão importante pra mim há pouco mais de um ano. Não sei se me arrependerei disto, mas acho que o homem é feito de experiências. E talvez as que mais enriqueçam, dolorosamente ou não, são as que se mergulha de cabeça sem muito pensar nas consequências. Vim a São Paulo porque te amo. Ainda.
Não consegui seguir o seus conselhos de “fique tranquila”; “agora é outro momento de nossas vidas”; “don’t waste your time on me”; “vá viver”; “me esqueça”. Tanto amor que ainda sinto não se apagou, não diminuiu com o tempo... Não sei qual é o melhor caminho pra que isso aconteça, mas realmente quero que isso se faça real, quero dar seguimento a minha vida sem ter você como objeto, hoje inalcançável, de amor. Não sei o que fazer.
Queria muito estar acompanhando, enquanto sua companheira, seu crescimento pessoal em busca de algo maior que você não encontrava em João Pessoa. Admiro-te profundamente pelas últimas decisões que vens tomando nos últimos tempos, é necessária muita coragem e vontade de se expandir tanto; uma vontade sem tamanho de não querer a mesmice e as enfadonhas repetições cotidianas. Por isso acho que não faz sentido querer acompanhar este desenvolvimento enquanto sua namorada.
Sinto que, sem querer, castrei muito os seus ímpetos e fiz da sua vida uma monotonia que você nunca almejou. Nunca te senti próximo de mim o tanto que eu gostaria. Analisando meus últimos textos poéticos, os que escrevi pensando em ti, percebi que você sempre foi retratado como uma pessoa que, ainda que próxima, sempre foi cotidianamente distante dos meus carinhos e amor... Esta análise, embora me deixe muito triste, me faz compreender o que enfim nos afastou. Só falta eu compreender isto ao ponto de me deixar viver plena e feliz.
O que me impede de ser plena e feliz é a incapacidade de gerir os descompassos entre a razão e emoção. O que na verdade eu gostaria de estar te escrevendo era “Amor,me deixa te amar de novo, me permite ser tua parceira, me queira querida, amante e amada, me deixa te amar e me ama também”... E outras coisas mais. Mas isto, além de não surtir o efeito que eu tanto desejo de alma e peito, não nos convém. Enfaticamente, não me convém. Não querer te dizer coisas com este tom é uma batalha que eu travo todos os dias contra mim. E, quando digo, me traz um arrependimento mais que cruel. Até um “Eu te amo” se faz extremamente doloroso por não haver nenhuma correspondência. Me faz ter vontade de não viver, e é como se eu estivesse morrendo aos pouquinhos a cada letra que te escrevo. Esta visão pode ter um lado positivo; é necessária a morte para que haja a vida. Talvez eu precise mesmo te escrever tudo o que eu julgar necessário para que eu definitivamente morra; para que eu possa renascer.
Embora eu, tão cheia de culpas, falhas, desatinos e abismos emocionais, quero que você saiba que meus sentimentos por você sempre foram plenos de positividade e que nunca quis nada pra você além de crescimento e força para conquistar suas metas de vida. Acho que a única coisa que posso pedir ao destino é que um dia, nesta vida, possa te ter novamente ao meu lado, ainda que não seja como amante... Que seja enquanto amiga, companheira em algum ramo, que seja, ao menos que seja próxima. Porque te acho uma pessoa maravilhosa demais pra mim pra que se encerre o contato físico de hoje em diante.
Se o destino não me conceder meu pedido, quero que você saiba que, mesmo assim, você sempre estará dentro dos meus pensamentos e do meu coração. Você sim, foi único, pois nunca nutri ódio por você. Espero que nossa conexão se mantenha além da matéria e do físico, embora seja o que eu deseje, mas a força de uma conexão além matéria pode ser mais útil pra gente.
Te amo com todas as vibrações de corpo e alma. E, embora atualmente ainda te queira enquanto amante, não espero nada de ti além de força e coragem pra dar seguimento à sua vida, que estimo ao futuro dela vitoriosa e repleta de conquistas materiais e intelectuais. Te amo, meu amado peixinho.
Te amo, te amo, te amo.
Te amo!!!.


Luíza.

20130528

II



Meu amor, meu Amado, vê…repara;
Pousa os teus lindos olhos de oiro em mim,
– Dos meus beijos de amor Deus fez-me avara
Para nunca os contares até o fim.

Meus olhos têm tons de pedra rara
– É só para teu bem que os tenho assim –
E as minhas mãos são fontes de água clara
A cantar sobre a sede dum jardim.

Sou triste como folha ao abandono
Num parque solitário, pelo Outono,
Sobre um lago onde vogam nenufares…

Deus fez-me atravessar o teu caminho…
– Que contas dás a Deus indo sózinho,
Passando junto a mim, sem me encontrares? –

(Florbela Espanca)

20130503

Volúpia


No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade…
A núvem que arrastou o vento norte…
— Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço…
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças…


(Florbela Espanca)

20130429

left lonely

20130426

a força dos meus teares

you're a mistery sky, você é o vazio em mim

Doença

Partes sem pra trás olhar
Partes de mim desmancham
Deitas num rumo sem rumo
Deitas-me vontade de extirpar...

Extirpar de mim essa doença
A quem debilmente chamamos
De amor... Doença sem fluxo,
Sem destino, não contamino
Me impregno, aspiro, me vicio
Deito em meus dedos lápis
E cigarros... O escapismo de quem
Não é alegre, e nem triste.
O peso frugal e tenaz de quem
É constantemente doente.

amo-te doze vezes

Te amo com cheiro de chuva
Te amo com gosto de cerveja
Te amo com cheiro de gozo
Te amo com rastro de trilha
Te amo com o amanhecer
Te amo com vontade de cheiro
Te amo com carinho de apelido
Te amo com sede à noite
Te amo com vício de fumo
Te amo com vãos desejos
Te amo com frio sob lençóis
Te amo com gosto de nunca mais.

20130423

Opus 17

something to hold close


Fumo


Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas…
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

Os dias são Outonos: choram… choram…
Há crisântemos roxos que descoram…
Há murmúrios dolentes de segredos…

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!…

(Florbela Espanca)

20130420

A tuz voz de primavera

Manto de seda azul, o céu reflete 
Quanta alegria na minha alma vai! 
Tenho os meus lábios úmidos: tomai 
A flor e o mel que a vida nos promete!

Sinfonia de luz meu corpo não repete 
O ritmo e a cor dum mesmo desejo… olhai! 
Iguala o sol que sempre às ondas cai, 
Sem que a visão dos poentes se complete!

Meus pequeninos seios cor-de-rosa, 
Se os roça ou prende a tua mão nervosa, 
Têm a firmeza elástica dos gamos…

Para os teus beijos, sensual, flori! 
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos, 
Só me exalto e sou linda para ti!

(Florbela Espanca)

20130418

you say goodbye and i say hello

Open up your tender soul

Linhas da vida




Cartas, linhas da vida
Mostram-nos rotas
Velhas ou novas
São guias de partida.

Essa vida, tão cigana,
Te afastou de mim
Não sabia que seria tão ruim
Tão injusta esta vida p'ra quem ama!

Os caminhos dessas mãos
Te deram escolhas amplas
Mas nossas vidas, ambas,
Têm momentos tão vãos...

Pergunto a mim de ti
Queria escolher o andar que tu escolhe
Mas isto é decisão de quem só sofre
Hora de perguntar-me de mim.

20130417

eu nunca te farei mal

20130416

gosto de morte


hoje acordei com gosto de morte.
acordei com ânsia de matar em mim
tudo o que me destrilha da sorte
tudo o que me põe em angústia sem fim.

hoje acordei com gosto de morte.
acordei com ímpeto de destruir
tudo o que me destateia e aborte
tudo o que me impede de sorrir.

hoje acordei com gosto de morte,
acordei indefinidamente morrendo,
acordei rejeitando tudo que me conforte,
acordei querendo o que me arrependo.


20130413

Mistreated

20130411

isso já sou

to forgive


20130410

o que não deveria dizer (ou sentir)


20130406

eu não deveria vir te dizer essas coisas dadas as atuais circunstâncias, mas se Deus me deu voz foi pra cantar, ainda que seja um canto triste. contigo aprendi a amar na adversidade. aprendi a amar o diferente, aprendi a amar os pequenos momentos de alegria e amar você é a melhor coisa do mundo. por isso, agora, perco o chão, não acho as palavras, ando tão triste, deixo a porta aberta e não moro mais em mim. ando a me perguntar frequentemente sobre o que há de errado comigo e porque encerrou-se teu amor. há poucos dias que meu amado e volátil planeta me deixou, mas sinto saudades de te amar enlouquecida, de te beijar as mãos e o coração como se fizessem décadas. amargas e roxas décadas. agora amo com desespero, com auto-flagelo, com indignação. eu desejo dolorosamente ser feliz, mas para ser feliz necessito desnutrir o meu jardim. o nosso jardim. hoje, sou mendiga de mim. noites e dias grito e rezo e choro, e só tenho a mim para me amparar. há de um dia explicar-se esse desdém que tens para comigo? só eu poderei me convencer disto, pois você está feliz e convencido. ainda que tu de mim fujas, um sonho lindo ainda vai atrás de ti, te procurando, te querendo. o vento aos meus ouvidos, no seu murmúrio chuvoso da madrugada, parece tua voz, linda canção que me despertava e me dava vontade de viver. hoje grito aos céus, às folhas mortas que sentem falta do verão e ao meu chão perguntando por onde andas... terra abençoada onde pisas... eu pretendo lhe dizer que vou ter que lhe deixar pra ter ar nos meus pulmões. eu preciso lhe apagar de mim.  eu espero que você os deuses me perdoem por estas palavras tão doloridas, pois o que se faz por amor está além do bem e do mal.
peço perdão a mim e a ti por amar tanto.

lu

20130408

Volúpia



Minhas costas escoriadas não escondem
Não ocultam o desejo que ainda há na tua boca
Tua fome de mim é minha fome de ti
Enlanguescida, perpetuo-me em tua escrava
Sou escrava de mim, e por ti sou louca

Toda a dor instantaneamente me deixou
As lágrimas me deixaram e me ocupei de sêmen
Este que escorreu por minhas coxas e boca
Secou no meu corpo voluptuoso e endorfinizado
Abençoo tua espada que me rasga - Amém.

De todos os presentes que te dei, eis o mais presente
Eis o meu amor, ao teu dispor, sem pudor
Ainda que este negues, sei que meu calor não rejeitas
Que pena, meu bem, não haveria mal em tê-lo novamente
Só quero te encher de gritos, heresias, e com meu odor

Estas mordidas que trouxeram por trás despedida
Despedida neste amargo outono, aqui estou
Escoriada na alma e na pele, abri-me para ti
Não lava nem esfrega esta tatuagem que em ti deixei
Nutre, ao menos, o desejo pela flor vermelha que restou.

20130406


20130404


20130403

Os meus versos

Rasga esses versos que eu te fiz, amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um momento!
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!…

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente…

Rasgas os meus versos… Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!…


(Florbela Espanca)


Sete dias

Há um outono houve um estranho encontro
Dois distintos planetas iluminados
Por um fulguroso desejo de entrarem na mesma órbita.
O planeta por mim guiado não tardou em fazê-lo;
Lá estavam nossos céus com as mesmas estrelas e luas
Só não eram sabidas as tão discrepantes diferenças...

Hoje, a minha boca é vermelha, mas não lânguida.
É vermelha da luz do fulguroso desejo;
Desejo que não vence os intransponíveis atritos.
Meu planeta respira indignação: "quero orbitar com meu amor!"

Há sete dias que parece que há um outono 
Meu amado e volátil Netuno foi-se embora.
E me deixou... desorbitada!

20130402

Meu jardim

Minha pele destateia e arde
Cada pétala deixada de saudade.
Estas agora me encobrem como um véu
De uma noiva sem fome com gosto de fel.

Torno-me repetidamente mendiga de mim!
Estender-me a mão é desnutrir o meu jardim
Aquele em que semeamos nossa luz...
Onde hoje só habita a folha seca que me conduz.

20130401

O nosso mundo


Eu bebo a vida, a vida, a longos tragos
Como um divino vinho de Falerno!
Pousando em ti o meu olhar eterno
Como pousam as folhas sobre os lagos…

Os meus sonhos agora são mais vagos…
O teu olhar em mim, hoje, é mais terno…
E a vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!

A vida, meu amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas, hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?…
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?…

O mundo, amor! … As nossas bocas juntas!…


(Florbela Espanca)

Chuva na varanda


Bate, chuva, bate forte
Bate com meu coração
Espanca forte na minha boca
A ausência daquela boca rude.
Rude, forte, doce; bate.

Molha, chuva, molha forte
Molha com meus olhos
Dissolve forte meu forte
Como o açúcar daquela frágil sorte.
Sorte, frágil, morte; molha.

Lava, chuva, lava forte
Lava com minhas mãos
Esfrega forte nos meus sonhos
O concreto daquele amargo adeus.