20110131

o homem que comia metáforas

meu querido amigo gustavo limeira (http://versorragia.blogspot.com/) teve a ideia de entregar a seus amigos potencialmente escrevedores um mesmo tema para um grupo de poemas: "o homem que comia metáforas". o resultado foi ótimo, gratificante e segue em seguida:

I [Marília]

O homem que comia metáforas
Era só sensações
Conquistava suas terras
Entrava e saía
Não dava satisfações
Ia embora levando em si
Toda a sentimentalidade que lhe fosse oferecida
Era tão altivo
Tinha nos olhos a pretensão
Nas mãos a bravura
No peito a coragem
E ia desgarrado, sempre em frente
Mas deixou que a tempestade
Levasse embora seu coração
E navegava num mar de lágrimas
Derramadas sobre o amor
Que escapava por seus poros
Esburacados pela dor navegável
Do sofrimento de ser barco
Flutuante em meio a chuva
E agora é só partida
Embarcado e sempre em frente
Na direção do infinito


II [Candy]

o homem comia metáforas para não viver são
o homem comia metáforas para viver sendo
sendo moço que pisa na lua
sendo lua que pisa no chão
engolia frases inteiras
e ainda pedia sobremesa
o homem comia metáforas para digerir a solidão


III [Matteo]

O Gargantua, por dentro era um abismo famélico
Buraco negro ansiando por ter alguma corzinha
E nessa fome anêmica achou estranhas cerejas de um bolo terminado.
Gargantua, leão aos cristões, foi enchendo o abismo
Como um coveiro selando existências.
Tridente na mão esquerda, cimitarra na direita
Um escudo sobre a mesa, e uma pá para a sobremesa
Começou pelo abismo, e ficou só a fome,
Mas por bem pouquinho tempo.
Continuou com o buraco negro, e ficou um estômago
Bem rosadinho e saudável.
Catou as cerejinhas e ficaram metáforas.
Depois de algumas mordidas, o escudo virou pirex
Tridente se rebaixou a garfo, a cimitarra uma faquinha daquelas de manteiga
A pá virou uma colher, e nem era de sopa
Comeu as metáforas todinhas, olhou pro lado
E tava naquela de sempre
Morgado


IV [Luíza]

Em um dia gelo de tristeza,
Encontrei um homem triste azul,

azul de fome. Acanhada,

mas empática, a ele perguntei:

- Perdoa-me a talvez indiscrição,

mas vejo no senhor uma fome,

e que não é de comida. –

Antes que eu pudesse algo mais dizer,

o homem, azul nostálgico, suspirou,

e me disse:

- Moça, a fome que vês está nos

meus olhos, no coração.

Bem queria eu um ardoroso e quente

vermelho, o ardor do amor. Moça,

em ver-te, lembrei-me duma outra

que certa amarela sem-graça tarde

perguntou-me do que eu sentia fome.

Mas a tola, tão cega, não foi certeira

como os teus olhos. Não soube ver

a fome que me tanto desnutria, que

tanto me molestava os sentidos.

Depois desta tarde, nunca mais comi

nada além da minha própria fome.



V [Gustavo]

cruas
geladas

fervendo

mal-passadas, faz favor

frescas

maduras

verdes

podres

no ponto!

bem-passadas, quase queimadas

queimadas, mesmo

em fatias

de bolo, com a mão

sem as mãos

com os olhos

com água, com pinga

com cerveja

descascadas

com semente, sem semente, som semente

com café e bolinhos

café com pão

bolacha, sim

no chão, no chão

na mesa, não

pouco açúcar, por favor

sal a gosto

em outubro, em dezembro

com guaraná

com cuba-libre, com Fidel,

à grega, à moda da casa

do jeitinho do chef

requentadas no microondas

pré-fritas

entupidoras de artérias

diestéticas, light, insight

com chá-mate.

com ki-suki, claro

das de lamber o beiço

com gosto de repolho ou de brócolis

defumadas, fumadas e embriagadas.


comia metáforas
e gozava.