20111113

Nêgo

amor, vamos negar
negar o mundo e seus desconsolos
negar o que descontrói
mas nêgar o que constrói
nêgar protestos por mais amor
negar exaltações às perfídias
vamos juntos,
nêgo e nêga,
nêgar o que mais há de lindo




20111012

Gotta learn

"Não poderia haver felicidade, jovialidade, esperança, orgulho, presente, sem o esquecimento."









(Friedrich Nietzsche)

Queria eu

O que teria sido do ontem se eu tivesse as mesmas impressões da vida que eu tenho hoje? Queria eu ter sabido mais do amor, e não apenas do pueril amor. Teria aspirado para o meu coração cada uma das dose rosas que recebi e, certamente, teria sabido o quanto eras tão carinhoso e o tanto tanto que me querias e como era sincero o teu amor. Teria eu não fugido mais de ti? A minha pequena compreensão fez de mim pequena. Queria eu ter descoberto da forma mais doce os segredos que a vida estava por nos trazer. Joguei tudo ao alto por insegurança. Hoje, madura, guardo com imensa nostalgia tudo o que eu passei neste ontem. E me forço a compreender que o meu ato inseguro trazia por trás uma grande atitude de preservação: preservei-nos do mundo. Fiz com que, separados, compreendêssemos as escaras terrenas. Essa mensagem não chegará ao destinatário, mas estou certa que o mesmo sente tudo isso igualzinho a mim. Não crescemos juntos até agora, mas crescemos juntos enquanto pudemos.

astronauta da saudade

vem, menino, e não tarda!
vem logo me dizer da lua
e dos segredos dela!
me diz se ela é de queijo
e se ele é bom.
me diz se a poeira lunar
te faz espirrar!
me diz se quando minguante
tu escorrega e cai
ou se quando nova
tu desaparece com ela!
vem, menino, e não tarda!
vem que o espaço,
meu menino astro,
fica muito melhor
contigo aqui comigo.

Dedos

Vejo estes dedos que outrora andavam com os meus; que outrora desenhavam os meus sonhos; que outrora endorfinizavam os meus sentidos; que outrora me acolhiam nos mais ternos afagos. E, em instante último, estalaram-se sobre a minha já despedaçada face. Passa dos dedos das mãos e dos pés o número de perfídias que estes dúbios dedos fizeram – e ainda fazem. Hoje, estes dedos, sem memória, delineiam outras histórias. E os meus, livres dos ímpios trilhos destes, fazem outros caminhos; os meus têm memória – mas uma boa memória. São agora sábios e sabem para que dedos devem entregar tamanha responsabilidade: a paz.

20110822

give me love, give me

ô, cadê? cadê você?

quando eu era sem ninguém
eu não tinha amor nenhum,
o meu coração batia, ô maninha,
tum, tum, tum.
todo mundo arranja um bem:
eu ficando sem ninguém
e o meu coração batendo, ô maninha,
tum, tum, tum.
você diz que faca corta,
que navalha corta mais,
e a navalha que mais corta
é a língua dos rapaz.
tum, tum, tum, tindolelê.
tum, tum, tum, tindolalá.
as moças da minha terra
nunca ficam sem casar,
(porque se passar dos trinta ela tem
santo antônio pra ajudar).
e toda meia-noite
eu sonho com você.
se você duvidar, posso até
sonhar pra você ver.



veia aberta


dá-me de volta minha vida
o amanhã já não mais vale
rasgo os estimados planos
impia é minha esperança
divinizei o demasiado humano
agora só resta o orgulho

20110611

redenção

divino é o teu semblante como as manhãs
escrevendo isto me redimo a tua grandeza
uma paixão que supera as mais cristãs
sou tua, tua serva, de todo amor e beleza

20110131

o homem que comia metáforas

meu querido amigo gustavo limeira (http://versorragia.blogspot.com/) teve a ideia de entregar a seus amigos potencialmente escrevedores um mesmo tema para um grupo de poemas: "o homem que comia metáforas". o resultado foi ótimo, gratificante e segue em seguida:

I [Marília]

O homem que comia metáforas
Era só sensações
Conquistava suas terras
Entrava e saía
Não dava satisfações
Ia embora levando em si
Toda a sentimentalidade que lhe fosse oferecida
Era tão altivo
Tinha nos olhos a pretensão
Nas mãos a bravura
No peito a coragem
E ia desgarrado, sempre em frente
Mas deixou que a tempestade
Levasse embora seu coração
E navegava num mar de lágrimas
Derramadas sobre o amor
Que escapava por seus poros
Esburacados pela dor navegável
Do sofrimento de ser barco
Flutuante em meio a chuva
E agora é só partida
Embarcado e sempre em frente
Na direção do infinito


II [Candy]

o homem comia metáforas para não viver são
o homem comia metáforas para viver sendo
sendo moço que pisa na lua
sendo lua que pisa no chão
engolia frases inteiras
e ainda pedia sobremesa
o homem comia metáforas para digerir a solidão


III [Matteo]

O Gargantua, por dentro era um abismo famélico
Buraco negro ansiando por ter alguma corzinha
E nessa fome anêmica achou estranhas cerejas de um bolo terminado.
Gargantua, leão aos cristões, foi enchendo o abismo
Como um coveiro selando existências.
Tridente na mão esquerda, cimitarra na direita
Um escudo sobre a mesa, e uma pá para a sobremesa
Começou pelo abismo, e ficou só a fome,
Mas por bem pouquinho tempo.
Continuou com o buraco negro, e ficou um estômago
Bem rosadinho e saudável.
Catou as cerejinhas e ficaram metáforas.
Depois de algumas mordidas, o escudo virou pirex
Tridente se rebaixou a garfo, a cimitarra uma faquinha daquelas de manteiga
A pá virou uma colher, e nem era de sopa
Comeu as metáforas todinhas, olhou pro lado
E tava naquela de sempre
Morgado


IV [Luíza]

Em um dia gelo de tristeza,
Encontrei um homem triste azul,

azul de fome. Acanhada,

mas empática, a ele perguntei:

- Perdoa-me a talvez indiscrição,

mas vejo no senhor uma fome,

e que não é de comida. –

Antes que eu pudesse algo mais dizer,

o homem, azul nostálgico, suspirou,

e me disse:

- Moça, a fome que vês está nos

meus olhos, no coração.

Bem queria eu um ardoroso e quente

vermelho, o ardor do amor. Moça,

em ver-te, lembrei-me duma outra

que certa amarela sem-graça tarde

perguntou-me do que eu sentia fome.

Mas a tola, tão cega, não foi certeira

como os teus olhos. Não soube ver

a fome que me tanto desnutria, que

tanto me molestava os sentidos.

Depois desta tarde, nunca mais comi

nada além da minha própria fome.



V [Gustavo]

cruas
geladas

fervendo

mal-passadas, faz favor

frescas

maduras

verdes

podres

no ponto!

bem-passadas, quase queimadas

queimadas, mesmo

em fatias

de bolo, com a mão

sem as mãos

com os olhos

com água, com pinga

com cerveja

descascadas

com semente, sem semente, som semente

com café e bolinhos

café com pão

bolacha, sim

no chão, no chão

na mesa, não

pouco açúcar, por favor

sal a gosto

em outubro, em dezembro

com guaraná

com cuba-libre, com Fidel,

à grega, à moda da casa

do jeitinho do chef

requentadas no microondas

pré-fritas

entupidoras de artérias

diestéticas, light, insight

com chá-mate.

com ki-suki, claro

das de lamber o beiço

com gosto de repolho ou de brócolis

defumadas, fumadas e embriagadas.


comia metáforas
e gozava.