20100720

Concreta

Eu, n'outras vezes tão fluida,
e também n'outras tão volátil,
fixo à força meus pés no chão
para não mais me dissipar.

O que me põe ereta, o que
me faz objetiva não é suficiente:
ainda pendo p'ros lados, ainda
fico bamba e maleável.

Frágil demais, meu caule
não sustenta a pretensão
das minhas flores.

Pretensa demais, quero
meus frutos à mostra
para todos.

QUATRO DE JULHO

Tudo em nossa vida é cíclico. A própria vida é um grande ciclo. A vida é uma linha de compensações. Vem e vão atividades, vem e vão lugares, vem e vão pessoas. Algumas delas mal passam um mês conosco e são capazes de nos desestruturar por completo. Outras estão conosco há mais de vinte anos e, quando se vão, mal sentimos falta. E, infelizmente, são necessários quarenta e um anos interrompidos para que nós percebamos a real valia daquela pessoa em nossas vidas e também nas outras.
É realmente necessário que as coisas e pessoas se despeçam de nós para tudo seja realmente sentido e analisado em nossas peles? É necessário que um ciclo se interrompa para que nós vejamos o que ele significava?
Parece que é. E parece que isso é humano. A partir da quebra, vemos cada rastro, cada pedacinho que o nosso querido ente deixou pelo mundo, que importância ele teve. Afinal, não sejamos egoístas, dentro de um grande ciclo há vários outros.

Ele é um filho. Ele é um irmão. Ele é um tio. Ele é um amigo. Ele é um mestre. É meu titio que nos deu adeus.
Transcenda em paz.

(1963 - 2004)