20100629

Fanatismo

Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida…
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

“Tudo no mundo é frágil, tudo passa…”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!…”


(Florbela Espanca)

20100621

Brasa

Ai! Que intenso o calor
do teu abraço, o furor
do teu aperto, e que doce
o clamor do teu apelo!

Deixa que eu me inunde
no fundo dos teus olhos
mais além da tua boca
e deslize nos nós do teu cabelo!

E não permite jamais
que teu infantil olhar se cerre
que teu sutil ardor cesse
e tampouco que a brasa apague.

Chama-me para tua chama
me abraça com tua brasa
me acerta em cheio com teu cheiro
queira, meu bem, que eu te arda.

20100618

Insultos são servos inconcretos

"Este lápis e papel são todos meus
Nesta noite de insultos tão belos e sinceros."


Minha letra pode ser bonita,
Minha letra pode ser do verso,
Minha letra pode ser da palavra.

Minha palavra não pode ser tua.
Mas, pode ser teu, o meu verso?
Pode e será.

"Nada sinto, pois a nada dou valia,
Ganhar e perder: qual a diferença?
Se ganho, pode ser lucro,
Se perco, pode ser lucro.
Pode ser. Mas e daí?
Não me vale. E assim sigo feliz,
Feliz no escárnio e na cólera
De não sentir."


(11/05/2010)

20100617

Absolvida

Apontaram-lhe as mais pontudas palavras.
Os que lançaram, agora, estão em conforto.
A estes nada aconteceu: ficaram impunes.
Que esperar? O atroz julgamento é a ela.
Contudo, no íntimo, sabem que assim não deve ser.
Aqui, o senso de justiça parece inerente a todos.
- Deixe-a ir. Livre. Já não há tempo,
Já não há força para ladrar. Deixe-a ir,
Esta terra já a assoreou demais
Este amor já a apunhalou demais
Este caminho já a traiu demais.
Dê a ela a salvação; outros trilhos.
Dê a ela outra razão; a absolvição.

Ludibriada

- Aqui está, senhora,
o que vos prometi. -
Disse-lhe a voz do Amor.
Mas, que infortúnio!
Que pesar não antes
ter sabido o seu real nome:
Chamava-se Ludíbrio.
Abraçou todas as promessas
e o mais sulfuroso ar
tomou em seus pulmões.
Mas, que infortúnio!
Que pesar não antes
ter iluminado os olhos.

20100611

Saudosa

Lembro-me dos odores, do calor, das feições
Cada lembrança é posta em meu mural de amores
Umas me trazem lágrimas e tristeza
Mas outras me fazem rir com doçura
Me fazem ver que a estrada é tortuosa
E que certamente devo seguir, sempre em frente
Olho para trás, e o que vejo me traz saudades
Olho para trás, sim, mas nunca retrocedo
Olho para trás, e choro e sorrio por todas elas.

20100609

Omitida

Depois de todo o estorvo,
Por trás de todos os baques,
Lá está ela, a Omitida.
É preferível que assim seja,
Omitida, só assim nada mais cessará.
Os rios correm, as mãos aplaudem,
Os olhos ficam vorazes, as vozes sagazes,
As flores têm cores, os jovens amores,
Por assim, Omitida, ela ser.
É sim, triste, por esse preço pagar
Para tão lindas coisas cursarem.
Mas no fim, sua amarga sina será doce.
E então será Relevada; não Omitida.

20100607

O Mar

Sou eu, o Mar. O majestoso, o profundo, o fluido, o maleável. À luz quente e radiosa do Sol, sou brilhoso como esmeralda e me aparento afável como uma mãe. À luz gélida e sombria da Lua, sou brilhoso como a mais preciosa das joias e levo lágrimas aos olhos românticos. Sou vida. Sou paradoxal em minha ressaca. Sou intranquilo, turbulento, ao passo em que sou quieto e apaziguante. Sei contemplar, sei ser contemplado. Sei da minha beleza e sei de todas as outras. Mas, ante injustiças, sou impiedoso e cruel. Eu, cheio de vida, não suporto ver nada sendo tomado: dissolvo tudo o que foi construído sobre uma desconstrução. Sou vida. Sou ciclo.

20100602

Quasímodo

Aquela a quem julgavas musa
Dotada dos maiores e melhores atributos
Rica em doçura e encanto
Tornou-se digna de ojeriza
Merecedora de julgamentos:
É adornada pelas piores formas.

Disforme, sim, tornou-se.
Ficou torta e triste.
Tão abrupta foi a mudança
Que já não se sabe o que foi antes:
Teria tão horrenda criatura,
Tão execrável já ter sido diferente?

Não: assim ela foi feita.
Nunca foi e nem será aprazível.
Nasceu novamente, e assim nasceu:
Débil e doente e repudiável.
Olhares tortos e maldosos não são suficientes:
- Vai, medonha, varre tua existência malquista!

Mas o que há por trás da horrenda, embora esquecido,
Ainda persiste, ainda que de modo debilitado.
Não há afago que a reerga de tantos buracos.
As escaras são tão terríveis quanto a forma que tomou.
Talvez, aquela a quem julgavas musa, mereça compaixão.
Ou não: ela merece, até o fim, ser aversada.

20100601

Desvalida

o fio que tece a agulha
o motor que sai do ronco
o sol que sai da luz
a flor que vem do perfume
o sexo que sai do gozo
a boca que vem do sorriso:
já não têm mais a força vital
acabou-se o movimento
já não têm mais validade
acabou-se o que era doce:
restou o amargo da invalidez