20100528

Infértil

Na minha terra não há adubo
que gere amor.
Na minha terra não há amor
que gere laços.
Na minha terra não há laços
que gerem vida.

Na minha vida não há amor.
Na minha vida não há terra.
Na minha vida não há vida.

Minha terra é estéril,
Minha terra é débil,
Minha terra é infértil.

Não há adubo.
Não há laços.
Não há amor.
Não há vida.
Não há terra.

Sou seca.

É noite de lua cheia, amor

É noite de lua cheia, amor.

Numa dessas me rendi a tuas feições.
E hoje, amor, nada tenho teu.

Guardo no peito o bom.
O mau, diluo com o bem.

Como tu bem aqui estavas
e mal daqui foste embora?

O bem que tu, amor, me fizeste
foi bem mostrar-me o mal que existe.

É noite de lua cheia, amor,
e ela chora por mim.

20100525

Olhar

A quem tudo observa e não é observado.


Daqui, tudo vejo: cada passo, cada pessoa.
Cada ciso, cada riso.
Cada folia, cada alegria.

Mas, daqui, nada sinto:
Não sinto o amor, não sinto a dor.
Não sinto o fervor, não sinto o furor.

Apenas enxergo o que apenas me é permitido.
Que seria de mim se pudesse tudo ver?
Ver o que recheia o passado, o presente e o futuro?

Essa luz agradeço não ter.
Prefiro a escuridão de não sentir.

20100518

Resposta

Tu, a quem fechei meus olhos e me entreguei, que dos mais inverossímeis pensamentos não sonhei que impiedosamente contra mim e nossas cúmplices promessas ofegantes lançaste-me cólera, injúrias, traição e demasiadamente foste tosco e insensível.
Oh, não pudera eu outrora te amar e te lançar tanta confiança e crédito doravante incrédula por ti. Quero que saibas, ao menos imagines, que para tua face que intenta o mal como uma navalha afiada traçando enganos, não quero mais olhar. E tua voz que gesticula mais que teus pensamentos não quero mais ouvir. E também em teus olhos que vertiginosamente me cegaram e que confundiram minha razão outrora, ao passo que eu havia com toda credibilidade e conveniência que se pode esperar de um início de amizade, te aceitei em minha vida.
Vai e esquece, pois as lembranças nada mudam e, no nosso caso, ficas no passado, pois é o lugar em que melhor te encaixas.
(Rariela)

Pergunta

Oh, grande dor que me atormenta! Súplicas, ainda que incessantes, mostram-se insuficientes para que minha alma e corpo se apaziguem. Nada me resta além do sofrer pelos enganos que tive e que ainda tenho. Que mais pode ferir que uma entrega sem retornos? Respondo a mim mesma: fere muito mais uma entrega com retornos falsos, adornados por uma beleza que oculta grandes males, tais como a perfídia e a frivolidade. De tal entrega não me arrependo. Como pudera eu saber de tudo que estava por vir? Eu fazia o que era mais que certo para os meus intentos. E certa sempre estive de que a nada nem a ninguém corrompia. A mácula que tanto me abraça com seus espinhos e venenos é a grande certeza, que tanto me abala, de que nada mais tenho a entregar: a nada, a ninguém, a nenhum outro ser. Nada se dispõe a atenuar o meu sofrer, além da vida que ainda existe. Nada mais além. Oh, grande dor que me atormenta!
(Luíza)

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Os textos que acima seguem foram feitos logo após uma atenciosa leitura, com uma grande companheira minha, da tragédia mais perfeita já escrita, segundo Aristóteles. Embora o tema deles não se assemelhe à inspiração, não é isso o que mais chama atenção: estes foram escritos paralelamente, sem nenhuma espécie de conluio e, mesmo assim, um pareceu resposta ao outro. Isto seria facilmente explicado por um racional que isto não passou de uma simples coincidência, já que o tema dos pensamentos já foi bastante debatido. Mas minha persona é sempre levada a crer nas questões mais espirituais. Convém muito mais a mim pensar que eu e minha amiga temos uma forte ligação. Acredito que ela sentiu que em mim certas perguntas que deveriam ser respondidas, ou que ao menos a turbulência causada pelas perguntas fosse abrandada. Assim sinto, assim acredito e assim foi.

20100508

"Mal secreto"

Todos pedem para que seja omitida a nossa verdadeira face. Há uma valorização do uso da razão ao passo em que as pessoas se destroem paulatinamente por não exporem o que são, e sim o que gostariam de ser. Esgota-se a busca pela transcendência espiritual, crescendo a busca extremamente curta pelos meios que levam até esta. Esses meios tornaram-se um sustento, uma base, para que as pessoas não caiam na desgraça de perceberem em quais condições elas estão inseridas. Desse modo, a tão almejada razão não é exercida em fato. Que utilidade têm as máscaras, senão cobrir a cólera que domina os infelizes?