20091124

Espelho

Passara duas semanas evitando qualquer tipo de reflexo. Água parada e até mesmo a parte prateada dos eletroeletrônicos me davam arrepios. Corria deles. Mas, não sei se mais tomada pela curiosidade ou pela coragem, resolvi encarar, dessa vez com a luz acesa, o espelho do banheiro, que nunca parecera tão grande. Até então, vivia me perguntando “o que é que eu verei ao me olhar?”, mas evitava enfaticamente pensar na resposta – até que eu a tive diante da face. Meses sem manicure, corte ou a maquiagem mais simples, dessas que se leva na bolsa; muito mais que vaidade – até certo ponto, é questão de identidade. No momento que, então, encarei aquilo que o espelho refletia, compreendi a velha máxima de que a resposta sempre é mais importante que a pergunta: uma interrogação pode levar a várias respostas – quiçá todas erradas. À altura de todos aqueles acontecimentos, nunca chegaria a uma conclusão satisfatória para “o que verei?”; desde o começo, tinha mesmo que ter perguntado “quem eu verei?”. E não havia resposta para isso.


(Philipe Moura, 24/11/09)

florbela, florbela

florbela: sempre triste, sempre demasiada, sempre dolorida, sempre lânguida.

Mas a minha Tortura inda é maior:
Não ser poeta assim como tu és
Para concretizar a minha Dor!

Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, amor;
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa, a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, amor, devagarinho…
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…

Beija-mas bem!… Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei pra minha boca!…



(Florbela Espanca)

20091123

Crucificada

Amiga… noiva… irmã… o que quiseres!
Por ti, todos os céus terão estrelas,
Por teu amor, mendiga, hei de merecê-las,
Ao beijar a esmola que me deres.

Podes amar até outras mulheres!
- Hei de compor, sonhar palavras belas,
Lindos versos de dor só para elas,
Para em lânguidas noites lhes dizeres!

Crucificada em mim, sobre os meus braços,
Hei de pousar a boca nos teus passos
Pra não serem pisados por ninguém.

E depois… Ah, depois de dores tamanhas,
Nascerás outra vez de outras entranhas,
Nascerás outra vez de uma outra mãe!



(Florbela Espanca)