20070513

soneto à liberdade

Não que eu ame teus filhos cujo olhar obtuso
Somente vê a própria e repugnante dor,
Cuja mente não sabe, ou quer saber, de nada

É que, com seu rugir, tuas Democracias,
Teus reinos de Terror e grandes Anarquias
Refletem meus afãs extremos como o mar,
Dando-me Liberdade! -à cólera uma irmã.

Minha alma circunspecta gosta de teus gritos
Confusos só por causa disso: do contrário,
Reis com sangrento açoite ou seus canhões traiçoeiros
Roubavam às nações seus sagrados direitos,

Deixando-me impassível e ainda, ainda assim,
Esses Cristos que morrem sobre as barricadas,
Deus sabe que os apóio ao menos parcialmente.



(Oscar Wilde)

cântico IV

Tu tens medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então será eterno.


(Cecília Meireles)

desventura

Tu és como o rosto das rosas:
diferente em cada pétala.

Onde estava o teu perfume? Ninguém soube.
Teu lábio sorriu para todos os ventos
e o mundo inteiro ficou feliz.
Eu, só eu, encontrei a gota de orvalho que te alimentava,
como um segredo que cai do sonho.

Depois, abri as mãos, - e perdeu-se.

Agora, creio que vou morrer.



(Cecília Meireles)

20070510

el ardor (d[c]olor) del amor II

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus barcos...

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...



(Florbela Espanca)

cantiga de maldizer

Marinha, o teu folgar
tenho eu por desacertado,
e ando maravilhado
de te não ver rebentar;
pois tapo com esta minha
boca, a tua boca, Marinha;
e com este nariz meu,
tapo eu, Marinha, o teu;
com as mãos tapo as orelhas,
os olhos e as sobrancelhas,
tapo-te ao primeiro sono;
com a minha piça o teu cono;
e como o não faz nenhum,
com os colhões te tapo o cu.
E não rebentas, Marinha?

(Afonso Eanes de Coton)

20070507

el ardor (d[c]olor) del amor


a m o r

a
r d o r

a

d o r




(Sérgio Capparelli e Ana Cristina Gruszynski)

20070505

escribindo con sueño III

enfim... concluimos que o sono nos deixa mais espontâneos; seja para escrever, seja para gerar uma briga.
- ô criatura energúmena! não se conclui no começo!
- tá bem. agora chega! já que você é tão melhor que eu, que troquemos de função.
- esperava mesmo isso vir de você.
o sono nos deixa mais espontâneos; seja para fazer uns escritos, seja pra gerar uma discussão.
- não lembro onde eu vi isso antes.
(...) uma das únicas partes boas do sono é a boa fluência dos pensamentos. não que sem sono a criatividade não venha, mas, no caso de muita gente, é bom ter a experiência de escrever algumas bobagens antes de deitar.
enfim, concluimos que...
- cadê a engenhosidade?! já vai copiar o que eu disse de novo?!
... é melhor dormir de uma vez e acabou-se o assunto.

- ...

20070504

problemas espinhísticos III

sem melequeira e drama sobre isso agora, talvez porque eu já tenha me acostumado com o fato dos vulcões insistirem em ficar no meu rosto. tudo bem, tudo bem. google images me consola.
de fato deixei de me importar bastante, - ainda me importando, me atrasando pra por pó de arroz - mas deixei de ficar fazendo novela por causa disso.
enfim, espero que não venha mais aqui escrever sobre isso. é chato e ninguém gosta de ler sobre os problemas dos outros ( ao menos não de espinhas!).
estimo que não haja um "problemas espinhísticos IV" :p

escribindo con sueño II

mas, o sono só é bom para escrever. apesar de todas as coisas que o sono atribui a criatividade na escrita, ao se relacionar com as outras pessoas isso pode estragar tudo.

- começou a escrever difícil. tsc, não liguem!

mau humor, descaso, preguiça. o sono tem o poder magnífico de fazer uma discussão tão magnífica quanto.

- magnífica é a sua capacidade de escrever besteira. sugiro que você escreva sem sono, não deve ser tão ruim assim.

- antes, me contradizendo. agora me criticas?

- ei! pare de invadir meu espaço! aqui só tem coisas sensatas, ao contrário do seu.

se a vontade de dormir não vir, se afaste das pessoas e leia. cairás no sono e certamente não terás...

- hum... parece um psicólogo frustrado-desesperado. futuro do presente? bleargh!

... interrupções.

20070502

escribindo con sueño I

talvez, o sono seja um dos melhores estimulantes pra registrar escritos maravilhosos.
- ou grandes bobagens!
sonolentos, pensamos mais fluentemente, temos mais capacidade de expor nossas idéias naquele momento.
- naquele momento, com sono, só pensamos em uma coisa: "sono, sono, cama, cama, dormir, dormir..."!
a tal da acriatividade não predomina só em mim, mas em grande parte das pessoas que se impõem de que não tem engenhosidade. mentira, é só tirar isso da cabeça que as idéias fluem.
- que nada. grande parte das pessoas são burras e não conseguem escrever nada mesmo.
- pare com isso. eu tô tentando escrever e você me atrapalha.
- ei, saia daqui! você tem que narrar!
- eu não estou narrando. eu tô escrevendo uma opinião e você não passa de uma que me contradiz.
- ah. que limitada sou.
a experiência de escrever algo caindo de sono é abominavelmente adorável. saem bobagens e coisas boas simultaneamente, o que torna o texto agradável de se ler, e...
- abominavelmente adorável?! a quem você quer enganar? o sono te deixa repetitivo, durma logo.