20200407

Casa

Gosto de estar em casa.

Sempre fui de estar em casa,
até mesmo quando mais fui de rua.

Cresci sozinha, falando com as paredes,
de papo com os dementes, cooptando e cantando vernáculos:
inglês, espanhol, malícias, maldades.
Conheci coisas e pessoas dispensáveis,
me apaixonei por rockstars mortos.
Quebrei pratos, queimei panelas, quebrei copos...

...e é em casa onde estive e me mantive segura,
muito, muito apesar de todas as coisas vis.
Sair de casa é sair de mim, eu deixando de ser eu,
eu sou minha morada. Os dias da rua se foram.

Quero ficar em casa.

20200405

Celsius

Aqui, tô morrendo de calor.

Fazem trinta e dois graus, 
são quatro da manhã
e nem sinal de cheiro de orvalho,
o muy poético cheiro de orvalho.

Sei que no Largo Mário da Vila,
número seis, fazem dezesseis graus.
Eu quero morrer de frio, no calor
do teu, do nosso cantinho.

Quero frio de bater queixo,
quero amor que dê calor,
que não tenha jeito.

São três mil quilômetros;
eu os atravessaria, passo a passo.
Só pelos dezesseis graus.

Desabrocho

Eu sempre fui casa de artista .

Em mim já morou música, poema e canção.

Cometi o desatino de permitir farpas no caminho.
Não sou flor, não sou rosa, não sou doce.
Desabrocha em mim mulheridade ríspida,
Excêntrica,
Áspera.

Mulher, demasiadamente mulher,
Irrompo-me, coloco-me, imponho-me
Artista, música e poeta.

20200328

À deriva do teu desejo

Faz de mim o que quiseres.
Põe-me nos braços, dá-me agarros.
Cobre-me de suores, de humores, 
de amores. Veste-me de sussurros, 
de eus-te-amos, da imparável ânsia do bem querer,
de querer olhar dormindo meus diletos olhos teus.
Mantém em riste a gana louca
dos abraços, dos beijos nos pés,
dos mais ternos mimos.

Que nós queiramos a permanência,
a insistência da sucessão dos dias.
Que queiras as mais langorosas noites para que
profundo nos amemos e para que bem durmamos.
Quanto a mim? Que seja irrefreável, ininterrupto,
meu querer de ficar à deriva do teu desejo.

Só.
Sinto-me numa ilha.
Ao meu redor, seguem-se vidas.

Tento nortear a minha:
não consigo.
Meus novos amigos são os impeditivos.
Se me vou para além da ilha,
um inimigo invisível me devora.
Gostaria de me voltar às danças e andanças,
de nadar todos os sete mares,
de errar e acertar o velejar.

Mas não.
Estou atada em mil trancas.
Não vejo o sol.
Quem me embala, perversa, nos braços,
é a solidão.

Ao meu redor, seguem-se vidas.
Sinto-me numa ilha.
Só.

20190904

Vermelho dor

Eu tenho uma flor
Quer era cheia de amor.
Nas luas negras,
Ficava vermelho licor.

Essa flor eu nutria
Com carinho e alegria;
Cuidando das minhas pétalas,
Abraçando meu jardim..

Mas minha flor foi violada
Numa madrugada
Assaltada 
Vilipendiada
Rompida

Minha flor nunca mais 
Ficou vermelho licor
Não mais desabrochou
Não mais amou
Não mais sorriu

Tudo pela ganância vil
De se tomar à força
O que não te pertence.

A FLOR É MINHA!
MINHA!
MINHA!
MI-NHA!

Mas eu sei que 
Todos os jardins
Hão de me vingar
Hão de me abraçar
Hão de me sangrar

Minha flor novamente terá
O mesmo vermelho licor
Nas luas negras, rubras
Minha vida terá
Novamente
Vermelho amor.

(24.04.2019)

20190811

Boca

Trago cá estes versos
que quero te dizer com a boca.
A mesma boca que quer te encher 
                                        de beijos
                                            prosas
                                    aconchegos
                                        acalentos

A mesma boca que grita poesias
                                       heresias
                                      rebeldias

A mesma que diz te gosto
                            te adoro
                              te amo.

Trago cá estes versos
de corpo, alma e boca presentes.
Cá, faço-me presente;
e assim quero sê-lo
até que, em último instante, 
nossas bocas digam
                                te quero.


(23.03.2019)


Saudades

Saudade, terra de ninguém,
E também terra de todo o mundo.
Ela arde, dói, maltrata
Mas a saudade também abraça.

Abraça com o cheiro nas roupas,
Nos lençóis, no hálito, no mar;
Abraça com a pele sob as unhas,
Com uma trilha sonora sob o luar.

Nos acolhe com dias que virão,
Novos cheiros,
Novos apertos,
Novas trilhas...

Vem, me dá a mão
E vem ser comigo.

Saudade, tão universal,
Mas tão tua.

(03.02.2019)

20180211

Check-in

Ouvi dizer que alguém amado é similar a chegar no conforto da sua casa; você chega cansado, quer comer algo e se deitar no aconchego da sua cama. E é pra lá que você sempre volta. No entanto, há pessoas que são quartos de hotel; é um aconchego temporário. Esse quarto é bom, mas você não quer ficar lá pra sempre.
(Estou num quarto de hotel pensando nesses dizeres, estes tão generalistas. Ao mesmo tempo pensando que achava que eu era pra fazer morada, não eventualmente receber check-out).
Eu não sou um quarto de hotel. Sou casa. E se não for pra entrar, por favor, silêncio no corredor.

20180210

Caminhando sob o sol

Antes, andava receosa, à margem
cautelosa, com medo.
Medo de ser mais uma,
de não ser ninguém.
Crendo ser sábia, não mergulhava,
não abria meu peito.

Então, veio você, doçura e leveza.
Não tive mais medo, nem cautela.
Fui alguém, fui mulher, fui tola.
Mergulhei e me afundei
num vasto oceano não-mútuo.

Agora, caminho sob a chuva,
o frio, a nevasca de pensamentos.
Mas não me esqueço do sol,
que todas as manhãs lá está
lembrando-me que nada devo temer
e que mergulhar é vital.

Sábio é o Sol.