20180211

Check-in

Ouvi dizer que alguém amado é similar a chegar no conforto da sua casa; você chega cansado, quer comer algo e se deitar no aconchego da sua cama. E é pra lá que você sempre volta. No entanto, há pessoas que são quartos de hotel; é um aconchego temporário. Esse quarto é bom, mas você não quer ficar lá pra sempre.
(Estou num quarto de hotel pensando nesses dizeres, estes tão generalistas. Ao mesmo tempo pensando que achava que eu era pra fazer morada, não eventualmente receber check-out).
Eu não sou um quarto de hotel. Sou casa. E se não for pra entrar, por favor, silêncio no corredor.

20180210

Caminhando sob o sol

Antes, andava receosa, à margem
cautelosa, com medo.
Medo de ser mais uma,
de não ser ninguém.
Crendo ser sábia, não mergulhava,
não abria meu peito.

Então, veio você, doçura e leveza.
Não tive mais medo, nem cautela.
Fui alguém, fui mulher, fui tola.
Mergulhei e me afundei
num vasto oceano não-mútuo.

Agora, caminho sob a chuva,
o frio, a nevasca de pensamentos.
Mas não me esqueço do sol,
que todas as manhãs lá está
lembrando-me que nada devo temer
e que mergulhar é vital.

Sábio é o Sol.

20180207

Do mistério

O mistério é o que nos move
O mistério é o que nos atrai
O não-saber do fluxo do outro
Nos compele a mergulhar em abismos.
Mas, misteriosa não sou.
Minha grandeza extravasa pelos poros
Meu peito aberto jorra franquezas
Minhas purulentas feridas repelem os que vêm.
No meu mistério, não há quem penetre
Minha verdade, não há quem a abrace
Não há quem em mim se crave
Pois, mistério, não há.

20180130

Intensa

Intensa... Complexa... Densa.
Assim me rotulam. Assim me rotulo.
E assim sou. Não sou fluida.
Não sou serena como as águas d'um lago.
Sou intempestiva como um tornado.
Sou ar que arranca folhas das árvores.
É criminoso? É pecaminoso? É sacrílego?
Crime é não mergulhar.
Pecado é não arrebatar-se.
Sacrilégio é não ser intenso.

20180105

Lua em leão

A lua em leão deixa as pessoas loucas.
A loucura elogiável. Dos desvarios pungentes.
Essa lua leonina, ferina, felina
Que extasia os sentidos mais inóspitos
Que nos faz dizer os impropérios impróprios
A lua leonina, lua da monarquia anárquica
Sob ela nos tornamos reis da absoluta lascívia
Selváticos, indomáveis, intocáveis.
A lua que nos atrai, magnetiza, incendeia
Que deixa nossos tatos efervescentes.
Um brinde a nós, inconsequentes
E à lua, regente da loucura.

20160823

I miss you so much





Dearest, sinto sua falta.
Sinto falta de te cheirar até de manhã
Gozar, gozar e gozar 
Até minhas pupilas voltarem ao normal

Dearest, sinto sua falta
Quando eu te tirei da minha vida,
Eu tirei a minha euforia
E nem café dispara mais meu coração

Dearest, sinto sua falta
Queria um, três, sete tiros
Eminentemente fatais
Como era fatal a sua presença

Dearest, I miss you so bad.

20150420

bloqueio

Primeiro você me incita
Excita
Extasia
Incendeia
Rasga
Invade
Por fim evade.
Me bloqueia
Confunde
Desconcerta
Acorrenta.

Te amar é um bloqueio.

20150201

essa não é uma história de amor

em 25 dias o sol é seu
mesma geração, idade!,
mundos opostos, vida!
te cultivo no meu sono
na minha úmida vulva
na boca vermelha
que anseia tua língua
nos meus quadris
que anseiam tuas unhas

não se trata de amor
é uma história de paixão
de lascívia, de pecado
é uma boa história, sim,
pecar contigo, delícia,
era uma prática divina
ofegante, extasiante!

distante, te tenho
na minha garganta
nos meus dentes
nas minhas unhas
nos meus dedos
e nos meus seios
te amo.

20141031

São Paulo e ele

Os passos inquietos e decididos que percorrem o centro de São Paulo são a cara dele. Não existe amor em SP? Não existe mesmo pros meus passos provincianos. Cheguei a essa conclusão. Todos os dias quando desperto, ainda com sorriso no rosto, de sonhos com ele, chego a essa conclusão. Não me amou. Em breve fará um ano que os meus pés não andam mais ao lado dos dele, entretanto, farão dois que ele  não sai da minha memória. Ele é tão nocivo quanto uma linha branca de pó. Jamais escutarei Zé Ramalho novamente sem me lembrar que no Vale do Anhangabaú ele me negou uma dança enquanto Zé estava se apresentando. O mesmo vale pra Alceu Valença, já que o vimos jantar em um restaurante no final da Augusta. A Consolação viu ele me negar um beijo quando a partir daquele momento passaríamos meses sem nos ver. Na Avenida São João, meu coração doía quando ele se referia a mim como amiga. Nessa minha breve estadia na cidade que não dorme, eu o convidei para fazer amor. Ele, sem hesitar, aceitou por duas vezes fazer o que melhor tínhamos em comum: sexo. Sexo selvagem, longo, sanguinolento e que tinha uma intimidade tão restrita a nós. Ao abrir a janela do hotel de manhã, pude ver uma ponte que abrigava moradores de rua. Na sacada da janela, vi inúmeros pinos de cocaína vazios e piolas de cigarro. Na cama, o vi dormindo. Derramei uma lágrima e lhe escrevi uma mensagem para seu celular. A noite para ele tinha sido de diversão. Para mim, de entrega. E assim ele se tornara São Paulo. E eu uma garota provinciana apaixonada que percebia que astrologia só fez sentido no nosso primeiro encontro,  quando ele me dizia que nós piscianos estamos na nossa última passagem pelo planeta. Hoje não tenho mais notícias dele. Não sei se ele pensa em mim. Sei apenas que ele está  feliz. Quanto a mim, caio em tristeza em qualquer menção a São Paulo.

20140917

Você é como um sonho

Numa dessas tardes que já dão sinal da noite, ternas como o cerrar dos olhos feridos de choro, sonhei com você mais uma vez em uma festa. Com os sentidos entregues ao delírio, você veio a mim como antes já veio: balbuciando frases sem sentido e desconexas, eu era a única. “Única o que?”, eu pensei. Diante da sua inconsequente  ebriedade de se dirigir a mim, de repente o som se emudeceu e só restamos eu e você num espaço escuro. Decidi lhe trazer para minha casa, que já fora nossa. Sentei-lhe em uma cadeira abaixo do chuveiro e vi a água fria da madrugada correr no teu corpo despido. Meu coração apertava junto com os meus olhos, incrédulos de tal situação. Te banhei, te cuidei, te alimentei, te vesti, te mimei. Quando te deitei, longe de mim, pude te amar, já desacordado: beijei teus lábios semi-cerrados, frios como nossos últimos beijos. Me mediquei além da posologia prescrita, porque não queria conceber aquela situação inesperada. No outro dia, você já tinha ido e me deixado um bilhete: “Desculpa o incômodo e obrigado por tudo.” Me perguntei se você leria o que te deixei, dobrado e dentro do bolso da calça: “Te amar é como ser um monte de areia de frente para o mar; tu vens, me levas, me traz de volta, vais embora, me levas e me traz... E a ressaca é toda minha. Te recolhes e vê se não me leva mais. Te amo e não quero mais te amar.” Finalmente acordei desse devaneio vespertino, com o sol já anunciando sua partida. E percebi que você na minha vida é como um sonho, como esse que tive; Longe da aridez desperta da realidade, é lindo estar contigo. Mas no saltar dos olhos, você vai embora. Como se nunca tivesse estado ao meu lado.